A paixão Japonesa por Levi’s | 1/2

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Nas mãos, submersas em água corrente, a bateia. Estamos na Califórnia em meados do século dezenove. De joelhos, garimpamos a sonhada pepita de ouro. Nossas roupas são frágeis demais, quentes demais e não aguentam o trabalho árduo e nem o Sol castigante da costa oeste. Precisamos de resistência e conforto. Vestuário novo, prático, para trabalhar rumo ao “american dream”.

Entram em cena Levi Strauss, homem de negócios com sede em São Francisco e Jacob Davis, um alfaiate de Reno, Nevada. Os dois enxergaram a necessidade do mercado e produziram as primeiras calças jeans, em 1873.

 

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Os overalls, como eram chamadas, eram feitas em denim bruto e tinham as costuras reforçadas por rebites, trazendo a promessa de durabilidade e conforto. O pote de ouro que a Levi Strauss e Co. Encontrou, durou mais do que qualquer pepita dourada. Até hoje todo mundo gosta de jeans. Todos nós temos um que veste perfeitamente, como segunda pele.

A calça jeans costurou a sua história ao longo dos próximos anos….
A Levi’s adotou o cowboy como ícone durante a depressão da década de 30. O jeans virou símbolo de liberdade e independência. Habitantes da costa leste viajavam para o oeste em busca de uma experiência autêntica e voltavam vestindo Levi’s.
Na Segunda Guerra Mundial soldados americanos usaram jeans e jaquetas, proporcionando a primeira exposição internacional. Houve uma explosão de demanda no pós guerra. A influência Americana exerceu a sua força pelo mundo.

 

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O relacionamento do Japão com o jeans é atrelado a esse crescimento durante os anos 50. Os jovens japoneses começaram a explorar lojas improvisadas em postos militares, e a cultura Americana chegou ao país através do cinema, da música e do contato com soldados e expatriados. Os personagens rebeldes de Marlon Brando e James Dean eram livres e ousados, bem diferentes de uma cultura sem espaço para liberdade e individualismo vigente na época. Ter uma calça Levi’s era viver esse universo que chamaram de American Graffiti.

 

A década de 1960 foi de contestação. A Levi’s ganhou força global como um dos símbolos da geração que queria mudar o mundo na base da paz e amor. Nas décadas seguintes, a Levi’s inaugurou lojas no mundo inteiro, mas foi uma época marcada por uma crise de identidade.

 

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Enquanto isso no pacífico, o jeans já fazia parte do universo japonês na década de 1980. O tão cobiçado Levi’s 501 era vendido em diversas lojas, mas alguma coisa não estava certa. Os japoneses, detalhistas, observaram que o jeans nas lojas não era mais o mesmo e começaram a garimpar as calças vintage. Enquanto os americanos curtiam shoppings, os japoneses viajavam para explorar cantos empoeirados no interior dos Estados Unidos. A demanda japonesa pelo vintage era enorme, enquanto nos EUA quase ninguém fazia ideia do potencial dos bons e velhos Levi’s e Lee.
Foi assim que por décadas os Japoneses saquearam os EUA. Colecionadores da terra do sol nascente possuem 70% do denim vintage, e a Levi’s é uma marca de destaque. Hoje, um par de jeans Levi’s 501 da década de 1940 pode ser vendido por mais de US$3.000, e é comum um Levi’s raro ser comprador por US$40.000.

 

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O mercado de entusiastas foi crescendo e as calças ficaram cada vez mais caras e raras. Os consumidores, descontentes com a qualidade dos jeans novos, resolveram reproduzir as qualidades das calças vintage. Assim surgiram as primeiras “repro brands”, marcas que buscavam recriar os mínimos detalhes de uma peça vintage em uma peça nova. Um exemplo do fascínio desse mundo pelo denim japonês pode ser rastreado nessas cinco marcas: Full Count, Evisu, Studio D’Artisan, Denime, Warehouse. Quando eles entraram no mercado não criaram jeans básicos e em vez disso, eles se concentraram na qualidade e no artesanato para recriar uma sensação vintage original.

 

Os criadores destas marcas são coletivamente conhecidos como Osaka 5, e seu artesanato estabeleceu as bases para a produção local de jeans. A atenção aos detalhes é o grande ponto: o tingimento, o algodão, a forma como o tecido era tratado, com que máquinas eram costurados, etc. Um exemplo é o jeans de uma marca chamada Strike Gold em que os rebites são de cobre por fora e de zinco no interior. Isso é feito porque os diferentes metais pegam cores diferentes à medida que envelhecem, e o usuário pode testemunhar a evolução ao longo do tempo de uso.

 

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Os fabricantes de jeans trouxeram de volta máquinas antigas, que estavam sendo eliminadas. Mas o segredo está nas pessoas que trabalham com isso. Nas fábricas de produção em massa, você verá 150 pilhas de tecido cortado por uma serra motorizada, mas nessas fábricas de Okoyama, sempre haverá um processo manual. O denim é muitas vezes previamente tingido à mão e as modelagens são frequentemente cortadas com tesouras. A Momotaro, outra marca que tem a mesma ideia, é conhecida por um denim tecido em um tear de madeira manual dia após dia por um único artesão.

 

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E foi assim que o Japão voltou os ponteiros do relógio e trouxe de volta o “original american jeans”. O objetivo era criar produtos com a qualidade e sensação das calças vintage. Eles reproduziram detalhes abandonados e trouxeram de volta técnicas consideradas autênticas. Encantaram inclusive o mercado americano, que sonhava com os ideais dessas épocas de ouro do jeans.

 

Portanto o jeans feito no Japão passou a simbolizar o que os japoneses enxergavam nos americanos lá na década de 50, e os nipônicos ficaram conhecidos por fazer o “made in usa” melhor do que os americanos.

 

Por Lucas Azevedo

 

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